Brincar com sons
Juntar letras
Formar palavras
Descobrir a sonoridade e o nome de tudo
Que está no mundo
nas coisas
no pensamento.

Ler é tão bom!

Poder viajar
Conhecer mundos de ontem
de hoje
de amanhã.
Imaginar.
Criar.
Sonhar.
A leitura permite isso e muito mais
Pois ler é tão bom!

domingo, 25 de maio de 2014

Receita de olhar / Roseana Murray

faça do seu olhar imensa caravela

Receita de olhar

Roseana Murray 

nas primeiras horas da manhã
desamarre o olhar
deixe que se derrame
sobre todas as coisas belas
o mundo é sempre novo
e a terra dança e acorda 
em acordes de sol

faça do seu olhar imensa caravela
      
Receita de olhar / Roseana Murray. - São Paulo, FTD, 1997.



 


vídeo: Entrevista com a escritora Roseana Murray
https://www.youtube.com/watch?v=7oRWe2KpSic







Transformação
Roseana Murray

Fabrico uma árvore
com uma  simples semente,
terra escura e quieta,
umas gotas de água.

Pouco a pouco,
de lua em lua,
de folha em folha,
enquanto o tempo
desenha arabescos
em meu rosto,
minha árvore se transforma
em poema vivo,
suas letras  são flores,
são frutos, são música.

Fábrica de poesia / Roseana Murray. -  Ed. Scipione, 2008

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Chuva / Hermann Hesse

 
(...) Baixinho cantarolo sons de criança (...)

Chuva
Hermann Hesse

Chuva morna, chuva de verão
Borbulha de árvores e arbustos.
Oh! Como é bom e cheio de benção
Uma vez mais sonhar de verdade!

Quanto tempo fiquei aqui fora,
Quão estranha essa sensação:
Habitar a própria alma,
O estranho, sem atração.

Nada quero, nada peço.
Baixinho cantarolo sons de criança,
E, surpreso, chego ao berço
Dos sonhos quentes de folgança.

Coração, como estás machucado
Porém feliz, remexendo cegamente,
Nada pensar, nada saber,
Respirar e sentir, somente.



Sites sobre Hermann Hesse

sexta-feira, 16 de maio de 2014

A menina transparente - Elisa Lucinda


(...) Posso ser vista no por-do-sol ou no nascer dele. 
A MENINA TRANSPARENTE
Elisa Lucinda

Eu apareço disfarçada de todas as coisas . . .
Posso ser vista no por-do-sol ou no nascer dele.
Eu posso estar através da janela,
Posso ser vista na asa da gaivota
Ou pelo ar que passa por ela.
Muitos me vêem no mar,
Outros na comida da panela.
Posso aparecer para qualquer ser,
Desde ele pequenininho;
Ficar com ele direitinho,
Se tratar de mim como eu merecer.
Uns me pegam pra criar em livro,
Outros me botam num vestido lindo,
Cheio de notas musicais:
Fico morando dentro da música.
Tenho muitas mães e digo mais:
Sou uma criança com muitos pais.
Tem gente que diz que eu nasço dentro da pessoa,
E faço ela olhar diferente,
Pra tudo que todos olham,
Mas não notam.
Às vezes apareço tão transparente e de mansinho
Que mais pareço um Gasparzinho.
Tem gente que nunca percebe que estou ali,
Não cuida de mim,
Não me exercita.
Eu fico como um laço de fita
Que nunca teve um rabo de cavalo dentro.
Eu fico como uma planta de dentro da casa
Que ninguém molha, conversa nem nada.
Quem me adivinha logo dentro dele,
Quem percebe que estou ali diariamente,
Quem anda comigo e com o meu gingado,
Fica com o coração inteligente
E com o pensamento emocionado.
A esse que eu dou a mão,
E vou com esse para todo lado:
Aniversários, passeios, sono, cama, biblioteca, casa, escola;
Estou com esse a toda hora.
Tem gente que me vê muito na beleza da flor,
No mato, na primavera e no calor.
É que ando muito mesmo.
Eu posso até voar!
Por isso que me vêem no céu, nas estrelas, nos planetas
E nas conversas das crianças.
Quem anda comigo tem muita esperança.
Todo mundo que me tem
Pode me usar e me espalhar por aí.
Quem gosta muito de mim,
Depois que me conhece,
Junta gente em volta como se eu fosse uma festa.
Me usam até em palestra!
Me acordam lá do papel.
Ih! Eu tinha esquecido de dizer
Que, quando a pessoa começa a me escrever,
Eu fico morando no papel.
Toda vez que alguém me lê para dentro eu passo para dentro dele.
Toda vez que alguém me lê para fora, em voz alta,
Como se eu fosse uma música,
Eu passo para dentro de todo mundo que me vê;
Eu posso trazer alento a todo mundo que me escuta.
Tem gente que me pega só numa fase,
Como se eu fosse uma gripe boa,
E como se dessa boa gripe ficasse gripada.
Quero dizer . . .
Eu dou muito no coração de gente apaixonada.
Minha palavra é do sexo feminino,
Brinco com menino e com menina,
Fico com a pessoa até ela ficar velhinha,
Inclusive de bengala;
E depois que ela morre,
Faço ela ficar viva
Toda vez que por mim é lembrada.
Às vezes eu sou sapeca,
Às vezes eu fico quieta,
Mas todo mundo que olha através de mim é poeta.
Veja se eu sou esta que fala dentro de você.
Eu não posso escrever porque não sou poeta:
Sou a poesia!
Tente agora fazer um verso.
Se eu fosse você, faria.

http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_infantil/elisa_lucinda.html


A menina transparente / Elisa Lucinda ; Il Graça Lima. - Ed. Salamandra, 2000.                                      ISBN não identificado


A menina transparente / Elisa Lucinda ; Il Graça Lima. - Editora Galerinha Record, 2010.                                      ISBN 978-85-0108-598-6

Esse livro, A Menina Transparente de Elisa Lucinda recebeu o 
Prêmio Altamente Recomendável, da FNLIJ-Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil. 

Elisa Lucinda dos Campos Gomes
foto: 
 http://casapoema.com.br/wp-content/uploads/2014/01/elisa_lucinda.jpg


vídeo: http://youtu.be/GSYLLx1Mknw

Aviso da lua que menstrua
Elisa Lucinda

Moço, cuidado com ela! 

Há que se ter cautela com esta gente que menstrua... 

Imagine uma cachoeira às avessas: 
cada ato que faz, o corpo confessa. 
Cuidado, moço 
às vezes parece erva, parece hera 
cuidado com essa gente que gera 
essa gente que se metamorfoseia 
metade legível, metade sereia. 
Barriga cresce, explode humanidades 
e ainda volta pro lugar que é o mesmo lugar 
mas é outro lugar, aí é que está: 
cada palavra dita, antes de dizer, homem, reflita.. 
Sua boca maldita não sabe que cada palavra é ingrediente 
que vai cair no mesmo planeta panela. 
Cuidado com cada letra que manda pra ela! 
Tá acostumada a viver por dentro, 
transforma fato em elemento 
a tudo refoga, ferve, frita 
ainda sangra tudo no próximo mês. 
Cuidado moço, quando cê pensa que escapou 
é que chegou a sua vez! 
Porque sou muito sua amiga 
é que tô falando na "vera" 
conheço cada uma, além de ser uma delas. 
Você que saiu da fresta dela 
delicada força quando voltar a ela. 
Não vá sem ser convidado 
ou sem os devidos cortejos.. 
Às vezes pela ponte de um beijo 
já se alcança a "cidade secreta" 
a Atlântida perdida. 
Outras vezes várias metidas e mais se afasta dela. 
Cuidado, moço, por você ter uma cobra entre as pernas 
cai na condição de ser displicente 
diante da própria serpente 
Ela é uma cobra de avental 
Não despreze a meditação doméstica 
É da poeira do cotidiano 
que a mulher extrai filosofando 
cozinhando, costurando e você chega com a mão no bolso 
julgando a arte do almoço: Eca!... 
Você que não sabe onde está sua cueca? 
Ah, meu cão desejado 
tão preocupado em rosnar, ladrar e latir 
então esquece de morder devagar 
esquece de saber curtir, dividir. 
E aí quando quer agredir 
chama de vaca e galinha. 
São duas dignas vizinhas do mundo daqui! 
O que você tem pra falar de vaca? 
O que você tem eu vou dizer e não se queixe: 
VACA é sua mãe. De leite. 
Vaca e galinha... 
ora, não ofende. Enaltece, elogia: 
comparando rainha com rainha 
óvulo, ovo e leite 
pensando que está agredindo 
que tá falando palavrão imundo. 
Tá, não, homem. 
Tá citando o princípio do mundo!



Sites sobre Elisa Lucinda



quinta-feira, 15 de maio de 2014

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Canta América / Solano Trindade

(...)  mas o canto da liberdade dos povos 
e do direito do trabalhador...

Canta América
Solano Trindade

Não o canto de mentira e falsidade
que a ilusão ariana
cantou para o mundo
na conquista do ouro
nem o canto da supremacia dos derramadores de sangue
das utópicas novas ordens
de napoleônicas conquistas
mas o canto da liberdade dos povos
e do direito do trabalhador...


Francisco Solano Trindade



vídeo: O legado de Solano



Sites sobre Solano Trindade

Bolinhas de Gude 
Solano Trindade

Jorginho foi preso 
Quando jogava bolinhas de gude
Não usou arma de fogo
Nem fez brilhar sua navalha
Jorginho era criança igual às outras
Queria brincar
O brinquedo poderia ser um revólver
Uma navalha
Um pandeiro
Quem sabe um cavalinho de pau
Jorginho queria brincar

Jorginho viu um filme americano
No outro dia 
Fez uma quadrilha de mentirinha
Sempre brincando
A quadrilha foi ficando de verdade
Jorginho ficou grande como Pelé
Todos os dias saía no jornal....
Televisionado
Só não deu autógrafo
Porque estava algemado
Ele era o facínora
Que brincava com bolinhas de gude.



Trem sujo da Leopoldina
Solano Trindade

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
pra dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Piiiii

estação de Caxias
de novo a dizer
de novo a correr
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome
Vigário Geral
Lucas
Cordovil
Brás de Pina
Penha Circular
Estação da Penha
Olaria
Ramos
Bom Sucesso
Carlos Chagas
Triagem, Mauá
trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Tantas caras tristes
querendo chegar
em algum destino
em algum lugar

Trem sujo da Leopoldina
correndo correndo
parece dizer
tem gente com fome
tem gente com fome
tem gente com fome

Só nas estações
quando vai parando
lentamente começa a dizer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer
se tem gente com fome
dá de comer

Mas o freio do ar
todo autoritário
manda o trem calar
Psiuuuuuuuuuu

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Chuva de vento / Mauro Mota

(As biqueiras da infância, ...)
Chuva de vento
 Mauro Mota

De que distância
chega essa chuva
de asas, tangida
pela ventania?

Vem de que tempo?
Noturna agora
a chuva morta
bate na porta.

(As biqueiras da infância, as lavadeiras
correm, tiram as roupas do varal,
relinchos do cavalo na campina,
tangerinas e banhos no quintal,
potes gorgolejando, tanajuras,
os gansos, a lagoa, o milharal.)

De onde vem essa
chuva trazida
na ventania?

Que rosas fez abrir?
Que cabelos molhou?


Estendo-lhe a mão: a chuva fria.


Mauro Ramos da Mota e Albuquerque

Sites sobre Mauro Mota




http://www.pernambuco.com/turismo/turismo_circuitodapoesia/

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O ron-ron do Gatinho / Ferreira Gullar


...esse ron-ron em seu peito
não é doença - é carinho.

O ron-ron do gatinho
Ferreira Gullar

O gato é uma maquininha
que a natureza inventou;
tem pêlo, bigode, unhas
e dentro tem um motor.

Mas um motor diferente
desses que tem nos bonecos
porque o motor do gato
não é um motor elétrico.

É um motor afetivo
que bate em seu coração
por isso ele faz ron-ron
para mostrar gratidão.

No passado se dizia
que esse ron-ron tão doce
era causa de alergia
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito,
calúnias contra o bichinho:
esse ron-ron em seu peito
não é doença - é carinho.



http://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/tag/ferreira-gullar/
Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira




vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=DTi-rcf_S6A



http://veja.abril.com.br/blog/meus-livros/files/2010/09/ferreira-gullar-flip-divulg.jpg